Meu primeiro Dia de Iemanjá
Vim para a Bahia com a ideia de rodar pelo estado inteiro. Minha segunda parada foi a ilha de Boipeba, e por aqui eu fui ficando.
A ilha tem encantos próprios. Ela conversa e nos escuta. Nos seduz e nos aproxima.
De acordo com meu planejamento inicial, eu deveria ter ido embora antes do dia 02/02. Queria passar o dia de Iemanjá em Salvador.
Isso mesmo… queria. Fui fisgado e me deixando levar. Um amigo me contou que o dia de Iemanjá aqui seria algo mais intimista do que em Salvador, e me convidou a ficar na ilha um pouco mais. Não tive como dizer ‘não’.
Já estava apaixonado pela ilha de qualquer jeito, uma razão para ficar era só o que eu queria ouvir, pois eu já sabia qual seria minha decisão.
Acordei meio cansado da noite anterior e achei que não chegaria a tempo para a celebração, que começava pela manhã com uma gira, que aconteceria na comunidade quilombola do Monte Alegre. A celebração se transformaria em cortejo e desceria até as praias de Moreré, de onde os barcos partiriam até alto-mar para entregar os presentes de Iemanjá.
Pra minha sorte de quem acordou “tarde”, diferentemente de Salvador, a entrega do presente não é de madrugada. Tive tempo para o café da manhã e me coordenar com meus amigos sobre onde nos encontraríamos para que pudéssemos ir juntos para o Monte Alegre.
Uma horinha e um trator depois, eu, Gabriel, Aretha, e Bia, estávamos andando ladeiras acima e abaixo procurando a casa em que estava acontecendo a gira.
Não fomos os primeiros a chegar mas ao menos não perdemos o cortejo.
Fomos guiados pelo som dos tambores e das cantigas, e logo achamos a casa. A gira seguiu por mais 1 hora e meia, dentro e fora da casa.
- Cortejo saindo da comunidade Monte Alegre
- Partida de barcos para a entrega do presente de Iemanjá
- Gira na comunidade quilombola Monte Alegre
A energia era de arrepiar. Muitas crenças, fé, e amor circulavam pela festa.
Era uma manifestação do divino, consagrada pela coletividade, abençoada pela deusa dos mares.
Não vou nem mencionar quantas vezes eu chorei durante o dia.
Como uma pessoa que não tem uma religião específica, prefiro acreditar em tudo do que não acreditar em nada. Estávamos todos nadando em uma grande abundância de sentimentos, me senti no lugar certo.
A festa virou cortejo. Presente na cabeça e pé na estrada.
Fiéis nos entregaram flores brancas. A euforia e animação eram imensas. Em meio ao balançar do trator, a cada vez que eu via o mar exalando azul lá no fim do horizonte, meu coração batia mais ligeiro.
Chegamos e nos concentramos em alguns pontos da praia. A preparação era minuciosa, já era quase a hora dos presentes irem pros barcos, e logo mais para os braços de Iemanjá. Me peguei pensando em quando estive na última casa da Virgem Maria, exatamente no dia da celebração da ascensão dela aos céus; na Guatemala, em uma das maiores celebrações de Semana Santa do mundo inteiro; no Egito durante o mês do Ramadã, o mês mais sagrado para muçulmanos, jejuando, e vivendo com locais até o Eid.
Era uma viagem por entre memórias. Foi impossível não deixar escapar um sorriso e repetir em voz alta “E agora eu estou aqui”. Muito mais que tirar fotos em frente a um monumento, estar presente durante a celebração de um patrimônio imaterial como esse é um privilégio enorme.
Não sabia nem como agradecer.
- Presente para Iemanjá
- Fiel leva rosa branca e seiva de alfazema
O presente foi levado ao maior barco, que levava também fiéis, e pessoas do terreiro que deram vida a festa.
Ouvi pelos cantos que não tinha espaço nos barcos. “Tá tudo bem”, pensei. Já estava vivendo muito para um primeiro dia de Iemanjá, mas decidi entrar na água até o joelho e ir fotografando a partida dos barcos desde a margem.
Tudo aconteceu muito rápido, eu só lembro de acenar para o capitão de um barco.
Ele no convés, eu na água.
Ele pegou minha câmera e eu subi. A realidade não parecia de verdade.
Meus pés molhados se equilibravam no chão de madeira enquanto as pessoas subiram.
Eu estava no barco, sem acreditar que eu também iria na entrega do presente. Logo nos acomodamos e fomos rumo a alto-mar.
Eu revezava a atenção entre a câmera e arregaladas de olho sem acreditar em como algo tão espetacular podia sempre melhorar.
O mar brilhava em azul profundo, doce e valente, abraçando aquela dezena de lanchas e barcos desbravando ondas e indo mar a dentro, tudo isso por amor e fé. Até acompanhados por golfinhos nós fomos.
A maresia soprava meu rosto choroso, secava minhas lágrimas, que caiam sem parar, sem sentir, passando pelo meu sorriso, e indo de encontro à água no convés. Chegamos ao ponto onde seria a entrega dos presentes.
Foi, sem dúvidas, um dos momentos de maior emoção da minha vida. Agradeci tanto a Iemanjá, que já não fazia sentido pedir algo.
Voltamos para a terra firme, onde uma roda de samba e uma de capoeira nos esperavam com agito e euforia. Era o chamado pelo profano que vem após o sagrado — pura folia, pura alegria.

Entrega do presente de Iemanjá